Igreja X Sociedade

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Igreja X Sociedade

        Campanha da Fraternidade 2015 Todos os anos a igreja católica traz para a conscientização da população brasileira, principalmente os seguidores de sua doutrina, temas da Campanha da Fraternidade, cujos lemas têm como objetivo envolver o povo católico e as instituições sociais vinculadas ou não a igreja e a CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, para uma reflexão e prática do bem. É sempre um chamado à comunhão, à fraternidade, num período de penitência, (Quaresma) culminando com a Páscoa.

         Objetivos claros, motivos nobres, causas importantes. Mas será mesmo que a igreja católica está andando de mãos dadas com a sociedade e a sociedade está se comportando da mesma forma? É preciso aprofundar mais a reflexão dos temas da CF sobre todos os aspectos, inclusive políticos, pois vivemos numa sociedade onde o nosso papel de cidadão depende muito de nossa condição e conscientização política, pois não dá pra se pensar em mudanças sociais somente através da fé. Desconectar nossas aspirações políticas das ciências sociais e da religião é o mesmo que tentar dirigir um “barco sem vela”.

         Como este ano a CNBB traz como tema da CF “Fraternidade: Igreja e Sociedade” e como lema “Eu vim para servir” (cf. Mc 10,45), se percebe claramente que o conteúdo é político, não tem como não ser. A reflexão pode até ser “humana”, desenvolvida através da caridade, da fé, e dos preceitos católicos, mas não distante disso deve está a nossa postura política, como eleitores e como eleitos. A representação de uma sociedade através do voto nos faz “servidores” desse chamado da igreja, e não podemos deixar que apenas os fiéis católicos assumam esse compromisso do serviço humanitário, do serviço aos “nossos iguais”.

A reflexão pode e deve ser abrangente a todos os setores de nossa sociedade, principalmente o setor político, o fio condutor de todas as mazelas sociais e a resposta aos nossos anseios, enquanto donos dos mandatos de nossos representantes; ignorar essa questão é anular o nosso direito de sermos representados dignamente nas decisões políticas de nossa nação. É preciso sim, participar ativamente da CF mais como cidadãos do que como fiéis católicos. Porque não adianta somente pregar o “Caminho, a Verdade e a Vida”, como uma abstração, é preciso trilhar esse Caminho, praticar essa Verdade, e viver essa Vida.

O evangelho da igreja católica é cheio de “verdades”, mas é só doutrinário; a CF que seria a prática dessa verdade, a fé concreta, é planejada para durar apenas 40 dias, enquanto durar a tal “penitência”, e continua a campanha ao longo do ano, não mais com tanta “verdade”, e é sempre a mesma coisa todos os anos, as ações concretas são transformadas pela fé, pelo amor e pela salvação de um mundo criado pelos “profetas da atualidade”, movidos por o único bem que Deus desprezou: o dinheiro. A igreja deixa de ser referência para um mundo melhor, mais humano, mais igualitário e mais fraterno, para se transformar em mais uma instituição capitalista, onde o tal lema da CF “Eu vim para servir” é um chamado somente para os cristãos, principalmente aqueles cristãos humildes e despolitizados, que não conhecem seus direitos, e são alimentados somente pela fé. É voltado para eles o lema dessa campanha.  

E se algum “iluminado” pensa que esse lema é para o serviço aos mais pobres, engana-se, é sim para os pobres, mas para que os pobres possam cumprir esse serviço. Aqueles pobres de chinela remendada, de pouca roupa e suja, com um crucifixo de cordão velho e de madeira ao pescoço, mãos calejadas, corpo surrado, banguelas, mas com o coração cheio de amor e simplicidade, servindo a igreja e sua opulência, doando seus últimos trocados, e se doando, em nome de uma “salvação”, que acreditam existir porque o padre falou. Isso é cruel, é desumano, mas é o que a doutrina nos ensina, e é o que a instituição religiosa nos manda fazer.

Pense: Igreja e Sociedade nunca andaram juntas, muito menos na hora de praticar o que diz o tão poético lema: “Eu vim para servir”. Mas, servir a quem?

 

Por Paulo Carvalho

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