Apenas um dia não basta para eu gritar para o mundo que eu sou mulher.
Para arrancar de meu peito os grilhões que me amordaçam, que por ser esposa dizem que eu tenho que suportar.
Apenas um dia não basta para eu gritar para o mundo que eu sou mulher.
Para na política em plena república me transformarem em legenda e usurparem o meu voto, outrora cassado, negado, sem valor, somente porque sou mulher.
Apenas um dia, apenas um dia não basta.
E essa homenagem febril fazendo-me crer retrato do Brasil, feminilidade tropical, como passista em curvas, seios e bundas e uma nota 1000.
Apenas um dia, apenas um dia não basta.
Porque quero ser “Pagu”, Maria Bonita, Olga e Zuzu; a força feminina delineada em batom; bocas que gritam, cospem e também cantam; não apenas bocas secas, passadas, mal-amadas, presas somente ao beijo da traição e da dor, ou o alento da língua de um sexo desconhecido que numa balada resolveu “ficar”.
Não basta um dia, mas todos os dias bastam, para calar o preconceito, o ódio e a perseguição. Chega de favorecimento; palavras dóceis disfarçadas de opressão; mulher não quer favor, nem direito a ser mulher; quer o dever dessa sociedade maculada de músculos, respeitando suas conquistas, e tirando as placas de idolatria das ruas, dos convites, das sessões; e da mídia as músicas que agridem diretamente todas as mulheres, e em trios passeiam no carnaval.
Porque apenas um dia não basta para deixar registrada a nossa indignação!
Queremos, como as mulheres vitoriosas do passado, deixar marcada a nossa força, nas paredes, nos livros, nos discos, em outdoors, fachadas, feiras, sindicatos, armazéns, clubes, igrejas, escolas e bordéis, através do batom, igual à Patrícia Galvão, a “Pagu” comunista e libertária; a artista que ousou ser a mulher mais marcante de seu tempo, com força e beleza; lábios cortantes como lâminas em ébano; e não basta somente uma “pagu”, não basta um dia, não basta uma força e apenas um batom; não basta a homenagem; as flores e os chocolates também não.
Apenas um dia só não basta; e a veia pulsante, mais com sangue que coração, contamina de vitórias as ruas cegas de nossos dias. A política de hoje aponta para cenários onde a mulher pode sair da vitrine e roubar a cena, porque os atentados do século XX aos poucos estão sendo enterrados, e nem mesmo a lembrança do terror vai conseguir desvirtuar uma trilha conquistada com muita luta e renúncia.
Agora basta tudo que consideramos atraso. E os sutiãs queimados, a conquista da pílula, do voto, do mercado de trabalho, e a quebra da castidade, sempre continuarão na história como marcas fortes de um batom que nenhum canhão vence!